As fitas cassete do meu pai

E não é que eu consegui encontrar algumas fitas no fundo da gaveta?

(Esse post tem trilha sonora)

Dia desses comentei que, estando o Wando numa situação delicada (que meu avô gentilmente classificaria como “mais pra lá do que pra cá”), eu não conseguiria realizar o sonho de assistir um show dele. Eu e um amigo tínhamos esse projeto, e pretendíamos fazer o roteiro completo, jogando nossos trajes menores no palco e tudo, porque, veja, qual a graça se não fosse assim - e agora, Rômulo? THE KING IS DEAD.

A despeito de toda a galhofa – e das cuecas e calcinhas economizadas nessa brincadeira –  de fato lamentei quando soube da morte do cantor ontem de manhã. Por mais estranha que essa frase possa parecer, o Wando fez parte da minha educação sentimental. Sério. Meu pai adorava o Wando, costumava ouvir a fita (A FITA!) que tinha dele dentro do fusca (73). A mesma fita que hoje corri para resgatar de dentro de uma gaveta, e que pus imediatamente para tocar.

O Mundo Romântico de Wando, como não amar?

Meu pai ouvia não só o Wando, claro, mas o Wando também. Aliás, agora em finalmente parei para pensar na minha experiência como ouvinte de MPB, devo dizer que, nos meus primeiros anos de vida, o “Popular” era talvez a palavra que melhor representasse o que a sigla significava para mim. Chico Buarque e Caetano  eu só fui começar a ouvir final do Ensino Médio. Novos Baianos e Mutantes, então, esses só fui saber quem eram quando já estava na faculdade. Na minha infância, para além do rádio – rádio nos anos 90, realizem! – eu tinha as fitas cassete do meu pai.

Cabe esclarecer que papai nasceu numa cidadezinha de Minas chamada Santo Antônio Aventureiro (população de 2000 aventureiros e uns quebrados). Já tinha uns 10 anos quando foi finalmente informado do advento da luz elétrica; antes tarde do que nunca. Só foi descobrir o que era rádio, no entanto, quando tinha uns 15, porque mudou de cidade, indo morar em Mar de Espanha (população de 12 mil, mas isso em 2004, segundo a wikipedia). Na fábrica em que arranjou o primeiro emprego ( foi aprendiz e depois  lapidador de pedras preciosas), o patrão tinha um rádio daqueles grandes, verdadeiros móveis para enfeitar a sala.

Quando meu pai entrou na era da televisão eu não sei realmente dizer, porque ele nunca me contou essa história, ou se contou não me lembro. No entanto, ouvi muito sobre o rádio. Esse sim marcou-o de tal forma que, quando finalmente teve dinheiro para comprar seu primeiro modelo a pilhas, nunca mais viveu sem um. Meu pai foi caminhoneiro, taxista e, antes de adoecer, mecânico. Tudo isso durante as décadas de 70 e 80, e ouvindo rádio sem parar enquanto executava as funções que lhe eram designadas. – papai não teve grana para investir numa vitrola, mas chegou a tempo de assistir à era dos toca-fitas – aparelho que, aliás, até hoje conservamos lá em casa.

Para alguém com esse currículo, fica fácil  imaginar o repertório musical que estava contido nas fitas que enchiam a estante. Wando, Fagner, Sérgio Reis, Belchior, Agepê, Elba e Zé Ramalho, Almir Sater, Bete Carvalho, Alcione, Oswaldo Montenegro. Nomes e músicas que me lembram a infância. O Fagner, meu pai dizia, cantava as músicas mais bonitas que ele já tinha ouvido na vida, músicas que o faziam lembrar da época em que ainda não conhecia o rádio e ia para a praça da cidade com o pai para ouvir os violeiros que vinham de quando em quando. Já o Wando, segundo me contou, era sucesso nas matinês de sua adolescência, para dançar colado com as meninas, numa época em que as mães faziam rondas severas para conservar a honra de suas pequenas – eu sei, grande parte do mundo vivia a revolução sexual, mas estamos falando do interior.

Através dos ouvidos do meu pai, aprendi o valor de cada canção que falava sobre amores, bares, estradas e solidão. Mulheres perdidas,  Ritmos e temas que, depois vim a saber (e, consequentemente, até a repetir) que eram bregas. Mas que jamais tive coragem de esquecer, embora tenha guardado as fitas cassete do meu pai no fundo da gaveta, quando ganhei meu primeiro CD player. Eu devia ter uns 10 anos e resolvi convencê-lo de que as fitas estavam muitíssimo ultrapassadas, e que agora só compraríamos CDs. “Cds são discos pequenos –  e tão caros quanto”, dizia.

Ele morreu poucos meses após o meu décimo sexto aniversário. Em seus últimos dois anos – os mais difíceis para todos nós –  nossas diversões consistiam em assistir a MTV e a CMT (um canal de música country americana). E, de quando em quando, desligar a televisão para ouvir não o meu rádio, mas os seus cassetes no toca-fitas. A verdade é que nunca conseguimos (ou não nos interessamos, ou não tivemos tempo, dinheiro, tampouco me lembro) em comprar CDs dos ídolos do meu pai. De toda forma, não fez a menor diferença, e talvez tenha sido até melhor assim.

A história é essa, não há mais muito a dizer. Devo ao Wando. Não pelas músicas, pela coleção de calcinhas que já rendeu tantas piadas, ou mesmo por ser um autor que aprendeu a fazer um personagem de si e assim transcender a própria obra – muito esperto, senhor Wando, mas não por isso, claro.  Devo respeito e uma homenagem a ele hoje pela importância (quase insuspeitada) do símbolo: não é qualquer um que consegue transformar-se, para sempre, em uma das fitas cassetes do meu pai.


#DL 2012 – Papel manteiga para embrulhar segredos, Cristiane Lisbôa

Eu nasci numa dessas famílias que, à boca pequena, concedia epítetos pouco lisonjeiros aos membros que não correspondiam às expectativas gerais. Assim sendo, cresci ouvindo histórias sobre a Prima Crente do Rabo Quente, o Tio Devedor e a Nora Cachaceira, dentre outros tipos folclóricos. Essa breve introdução serve não apenas para fazer um inventário dos preconceitos familiares (e imaginar o que é que andam falando de mim hoje em dia!), mas também para dizer que na minha rua morava a Parenta Solteirona.

A bem da verdade, a Parenta Solteirona sequer poderia ser considerada como tal. Tinha mais de 40 anos quando casou, não teve filhos e o marido era “ausente”. Ausente, no caso, era um eufemismo para “gastava todo o seu dinheiro com mulheres na rua”, como muitos anos depois fui descobrir. (Para uma família com tão poucas travas na língua, não me perguntem por que justamente esse desvio era um tabu, eu não tenho uma explicação convincente sem ter de recorrer a jargões como “sociedade patriarcal” e blablabla. Prossigamos.)

A história a seguir se passa na casa da Parenta Solteirona, um dos lugares que eu e uma prima adorávamos visitar. A dita cuja possuía uma coleção de miudezas que nos encantava. Era fácil trocar todos os nossos brinquedos de plástico colorido – e mesmo meu master system – por uma tarde com bonecas de porcelana e de olhos de vidro, quebra-cabeças de madeira envelhecida e algumas outras preciosidades. A vedete da coleção era um jogo de chá de porcelana em miniatura. Aquelas xícaras minúsculas, um bule tão pequeno e colheres ainda menores saltavam aos nossos olhos a cada visita, mas permaneciam muito bem trancados na prateleira mais alta da cristaleira que ficava na sala.

Um dia, por um capricho qualquer, a Parenta Solteirona tirou o conjunto da cristaleira, e pôs até água da torneira no bule, para que o ritual do chá pudesse ser devidamente encenado. No entanto, só à minha prima foi dado o privilégio de mexer na louça: eu fui proibida terminantemente de chegar perto do bule, e só pude ficar com a xícara na minha frente, sem realmente tocá-la. “Você é um moleque, e se eu deixar na sua mão vai quebrar”.

A despeito da brilhantismo no trato com crianças que a Parenta Solteirona exibiu, em uma coisa ela estava certa: eu era mesmo um moleque. Por volta dos 10 anos eu barbarizava. Andava de boné, gostava de brincadeiras brutas e arranjava brigas na rua como quem muda a roupa das Barbies. Aliás, odiava Barbies. Minha prima era, como muitos podem supor, meu negativo: uma princesinha loira toda trabalhada na delicadeza. Outra suposição pertinente diz respeito ao final dessa história, que não é nada bonito, mas bastante previsível: chamei a Parenta de Solteirona, engatilhei dois palavrões cabeludos para que a frase surtisse o efeito desejado e fui embora, batendo os pés. Nunca mais fui convidada para aquela casa, e a Parenta Solteirona (que hoje em dia chamo de Esquisitona Rancorosa - devo ter herdado a vocação familiar, mesmo sem querer) não fala comigo direito até hoje.

Por mais que seja uma história engraçada (pelo menos o meu avô assim a descreveu para a minha mãe, na época, mas sei que há controvérsias), de vez em quando ela volta aos meus pensamentos. Sofro com uma sensação persistente de que não sou capaz de segurar uma pequena xícara de porcelana nas mãos sem que a tragédia, há muito anunciada, se concretize. É como se a delicadeza não tivesse vindo como item de fábrica para o meu modelo. Teimosa que sou, decidi aprendê-la na marra; e é por isso mesmo que ela é tão artificial e falha.

O corpo cresceu e ganhou formas femininas, o cabelo ganhou cachos, o boné vermelho foi substituído por um sem número de chapéus, tomei gosto pelas saias, vestidos e sapatos delicados. Mas ainda assim os modos (os maus modos, diriam alguns) permaneceram. Em um certo sentido, jamais deixei de ser um moleque – e não é de se espantar que, apesar de algumas concessões, eu não tenha abrido mão de ser assim.

Um efeito colateral dessa minha “deficiência de delicadeza” – Centrum resolve? – é meu interesse por coisas de mulherzinha. Um interesse estranho, que oscila entre a atração psicótica e a repulsa ostensiva. Só para citar um exemplo, dentre minhas leituras favoritas, que não são muito dadas a frescuras, separo um espaço especial na minha estante para os romances da Jane Austen. Sério. Já perdi a conta de quantas vezes li Orgulho e Preconceito. A madame fica encostadinha aos livros do Kerouac, uma coisa linda (e meio sacana) de se ver.

Papel Manteiga para embrulhar segredos me chegou às mãos nesse clima. Atração e repulsa. A capa e contracapa me eram demasiado fofas, isso sem falar no close da xícara que, por si só, já me deixou um tantinho apreensiva. Fiquei desconfiada, mas, como várias pessoas diferentes haviam me indicado, resolvi prosseguir na leitura.

A narrativa é epistolar, e deve muito de sua composição à fábula: uma aprendiz de cozinheira chamada Antônia, num restaurante perdido no tempo e no espaço, envia cartas e receitas para sua bisavó, muitas vezes escritas no próprio papel manteiga que usa na cozinha. O texto prossegue sereno e sem sobressaltos. As cartas salgadas e doces – dependendo de quais receitas as acompanhem – nos dão a conhecer um pouco mais da narradora e seu processo de iniciação na cozinha, que é também sua iniciação na vida adulta. Cabe à Senhorita Virgínia, dona do restaurante, o papel da tutora que auxilia Antônia em ambas as transições. E, de quebra, a matrona torna-se cúmplice dos segredos que a jovem partilha com a bisavó. Mais não digo para não atrapalhar a leitura, que tem lá suas pequenas reviravoltas, e não estou aqui para encaroçar o angu de ninguém.

As receitas, assinadas por Tatiana Damberg, parecem ser, em sua maioria, de execução fácil a moderada. Só não fui para a cozinha testá-las ainda por causa do volume de trabalho que tenho tido. A papelada só anda me permitindo, como ponto máximo dos meus delírios gastronômicos, parar o que estou fazendo para ligar para o delivery de empanadas. E olhe lá.

Cristiane Lisbôa cozinhou o texto em fogo baixo, com uma calda de açúcar dourada. Tudo é banhado por essa doçura caramelizada, daquelas que até fazem doer o cantinho da boca, sabe? Há passagens muito bonitas, como a que Antônia afirma-se como cozinheira para a bisavó, contrariando a mãe, uma feminista militante: “[...] como se para ser uma mulher moderna eu precisasse mentir que não gosto de panos de prato. Entendo que o sexo é político, abomino mutilações como as que acontecem em algumas tribos africanas e, claro, sou a favor de algumas coisas que ela defende, mas Bisa, minha luta é outra. Mulheres não precisam ser masculinizadas para que exista respeito. Em momento algum é preciso fingir que não temos, lá dentro, um sentimento arcaico de servir sabor a quem amamos. Isso não me diminui, não diminui ninguém. Apenas nos afasta”. E há também lembretes carinhosos para o melhor preparo das receitas, uma cortesia de Virginia: “Não se esqueça de tomar um copo de rum enquanto cozinha. Pode dançar se quiser”. Outras pequenas delícias são facilmente encontradas no corpo do texto – mas não vou citar mais nada para não encher  de couvert a barriga de possíveis clientes, antes que o prato principal tenha chegado à mesa. Digo que indico a leitura; indico a leitura com chá e biscoitos.

Por vezes achei que Cristiane Lisbôa fosse perder a mão. E, por vezes, quis deliberadamente que ela a perdesse: que a consistência ficasse estranha, que o leite coalhasse, que a massa solasse e virasse uma gosma enegrecida no fundo da forma. Assim eu poderia sair com um comentário cínico que me salvasse, assim não precisaria me render totalmente à aura acolhedora da cozinha de Virginia. Mas meus desejos azedos foram todos em vão.

E ainda bem, porque a receita seguiu seu curso e foi um sucesso. Quando terminei a leitura, num ponto de ônibus lotado, no meio de uma chuva sem trégua, numa das avenidas de maior tráfego da cidade, ainda assim. Ainda assim eu me sentia pronta para tomar chá com Antônia e Senhorita Virginia. E segurar a xícara entre as mãos, e talvez não deixá-la cair.

“Agora é daqui pra frente”, concluiu Antônia, esperançosa. “Pois é”, pensei comigo, enquanto o ônibus finalmente chegava ao ponto, e o ritual do empurra-empurra estava apenas começando.

#DL2012 – O pedante na cozinha, Julian Barnes

Eu adoro cozinhar. Mas na época em que tenho que escrever monografias ou outros textos para a academia caio de cabeça no vertiginoso mundo das refeições prontas com sabor artificial de papel, sacos gordurosos de biscoito, sanduíches de recheios tão criativos como atum e patê de latinha com maionese, dentre outras guloseimas do gênero. Isso não ajuda em nada o mau humor que costuma nortear todo o período em que me entoco em casa para escrever, eu sei. Mas só de pensar em chegar perto do fogão sinto uma preguiça existencial que me derruba. De volta ao computador: se é pra procrastinar que seja no twitter, e não cortando legumes.

(O caso extremo da preguiça gastronômica talvez tenha sido a semana em que me alimentei quase que exclusivamente de batata palha e coca zero, porque estava nas páginas finais da dissertação e não tinha tempo/disposição de sair de casa para comprar comida. O previsível resultado foi uma gripe-amidalite-conjuntivite que  quase me levou para o Esquecimento, e sem o diploma de mestre.  Não que o diploma fosse ter muita validade por lá, é claro. Fui defender o texto de óculos escuros, rouca e ardendo em febre. Um papelão que não pretendo repetir e que não recomendo para ninguém: crianças, comam seus vegetais!)

Também não gosto de cozinhar só para mim. E eu geralmente estou só durante grande parte do processo de escrita – até porque fico particularmente insuportável em épocas como essas. Quando nem o amor de mãe dá conta, e a minha  ameaça me rifar…, vai vendo. Voltando ao tema. Cozinhar para consumo próprio esbarra em alguns impedimentos básicos na minha visão de mundo, que são:

1) Só gosto de comida feita e consumida na hora. Me chame de garotinha da mamãe, mas mesmo que eu cozinhe a menor porção possível do básico, ainda assim vai sobrar arroz e feijão para sei lá quantos milênios, e sou fresca o suficiente para achar que 48 horas depois o “gosto de geladeira” causa danos irreversíveis em qualquer tempero.

2) Não tem ninguém para lavar a louça. Cara, eu odeio lavar louça. SÉRIO. Posso ficar 4 horas na cozinha tranquilamente, mas não me peça para lavar louça por 20 minutos.

3) E, o pior de tudo: não há ninguém para cumprimentar o cozinheiro pelo sucesso de um prato. De que adianta um penne ao funghi irretocável se não havia testemunha gustativa para atestar o fato? Resultado: você vai comer, vai mandar um “joinha” interno para si e o que sobrar do manjar di-vi-no que você preparou… adivinha?  Quando alguém resolver atacar as suas sobras num momento de desespero arqueológico, a comida vai estar com gosto de geladeira. E você ainda vai ter que ouvir algum esfomeado na madrugada perguntando se tem miojo no armário. Vai por mim: história real.

No entanto – e apesar dos pesares – cansada da rotina de almoçar um congelado e jantar hambúrguer (cortesia do namorado, que se dispôs a fritá-los para mim durante boa parte das últimas semanas – e não sou mal agradecida!), decidi cozinhar algo que se parecesse com comida de verdade. Ainda que de leve. Fui ao mercado sem um plano específico e voltei com bombons de alcatra. Improvisei um molho madeira, fiz uma farofinha com ovos, fritei umas batatas noisettes – que eu havia comprado congeladas, ou você achou que eu ia ter saco de prepará-las? – e pronto, em menos de 50 minutos tinha salvado um pouco da minha dignidade.

Imbuída do espírito de “minha comida não parece uma gororoba aleatória” achei por bem espantar a preguiça de vez e resenhar o primeiro livro do Desafio Litérário 2012: O pedante na cozinha, de Julian Barnes.  O tema de janeiro, para quem não se lembra, era Literatura Gastronômica. E eu havia prometido ler Como Água para Chocolate, da Laura Esquivel. Sucede que eu não achei o livro de jeito nenhum nas minhas estantes, antes de viajar. E acabei encontrando O Pedante como que por acaso numa das minhas visitas à livraria X de um cinema Y. (Tinha colocado o nome da dita cuja, mas retirei antes que me acusassem injustamente  de merchan: gasto os tubo por lá e nem os marcadores de página que eles dão são utilizáveis – só fazem propaganda de livros uó).

Enfim, O Pedante na Cozinha. Vamos à ficha técnica.

Autor: Julian Barnes, o mesmo indicado pelo Marcos Faria para o mês de maio, com seu História do Mundo em 10/2 capítulos. Uma puta e feliz coincidência, devo dizer. Nunca havia lido, e estou pensando em colocar na lista de prioridades, porque me diverti de verdade.

O que é: uma série de crônicas sobre culinária, (muito bem) escritas por aquele que se julga um pedante na cozinha: o obsessivo que gostaria de extrair o máximo de cientificismo das receitas culinárias, e que está pronto a queimar livros e autores  na inquisição culinária pelo uso de termos subjetivos como “a gosto”, “pitadas”, “mão cheia”.

Não, espera, não estou sendo justa – o livro não é só isso. Ele também dá alento a cozinheiros esporádicos como eu, dizendo coisas óbvias mas pertinentes como “jamais acredite nas fotos dos livros” e “não compre um livro sobre sucos se você não tem um espremedor de frutas em casa”.

Tempo de preparo leitura: um par de horas muitíssimo bem aproveitadas. Coisa fina para ler enquanto se assa uma maminha na cerveja preta.

Adequado para:

a) gente que gosta de cozinhar e fica meio neurótico quando a receita não é clara o suficiente, ou quando a suflê dá errado, ou quando aquela sobremesa fica parecendo pudim de terra.

b) diletantes na cozinha que sempre largam a receita de lado no meio do caminho e sempre acham que vão fazer melhor do que chefs pomposos com programas na TV – chupa, Gordon Ramsay! – geralmente com resultados catastróficos. Categoria na qual me incluo.

c) gente que nem liga muito para cozinha – quer dizer: sabe fazer pipoca de microondas – mas ainda assim gosta de um texto bem escrito, de uma ironia de bico de pena e de rir um pouco com as desgraças alheias. Categoria na qual também me incluo.

Perdeu o ponto: nas ilustrações. Vou te contar, as ilustrações do livro são motivo de vergonha alheia para 2012 inteiro e além. Tão feias e despropositadas que sequer estão creditadas. Ou foi o filho adolescente de alguém importante quem fez, ou foi o próprio autor (que não quis ser incriminado pelo capricho) ou foi obra de algum chef muito xingado nas crônicas, que conseguiu inserir aquelas atrocidades visuais antes que o livro fosse impresso na gráfica.  Não compromete o texto do Barnes, evidente, mas destoa do conjunto geral. “Nunca acredite nas fotos”, o autor diz. E eu digo “não acredite nas ilustrações toscas”, porque o livro não merece.

O couvert é opcional: Leia a primeira crônica aqui.

Até o fim do mês verei se consigo encontrar minha Laura Esquível perdida. E aos leitores e amigos que me indicaram a leitura de Papel Manteiga Para Embrulhar Segredos, da Cristiane Lisbôa, devo dizer que estou frustrada. Fiquei animada com tantas indicações (foram pelo menos 7 ou 8, de uma autora que eu desconhecia), achei o blog da moça, entrei em cinco livrarias diferentes e em nenhuma delas havia um exemplar do livro dando sopa. Digo o mesmo para dois sites e a Estante Virtual. Acontece.

Só mais 5 minutinhos… de tensão

Não basta sofrer com a insônia: é preciso ter o sono leve, daqueles que fazem do passarinho cantando no parapeito da janela um inimigo mortal. Isso sem mencionar as cigarras no verão – não há bucolismo que resista àquele som infernal e lá esta você, desejando que um bichinho que você nem consegue ver CANTE, MAS CANTE ATÉ EXPLODIR, MISERÁVEL. Como é que se pode ser uma boa pessoa numa situação dessas, me diz?

Enquanto eu não puder me entocar num quarto com luz e temperaturas controladas – e, acima de todas as coisas, isolamento acústico – vou provavelmente acordar nas primeiras horas da manhã com algum barulho persistente, e particularmente irritante. E com um humor daqueles de pendurar a plaquinha “Cão bravo”. Não é culpa do mundo se meu relógio biológico anda em descompasso, mas, ei, certamente a culpa não é (inteiramente) minha também. Não podemos chegar a um acordo?

Ah, as maravilhas da vida em comunidade! Não importa se com a família, o namorado ou os colegas de quarto, e  eu tenho ampla experiência nos três casos: sempre haverá um motivo para querer esganar as pessoas que moram com você, ainda que com muito amor. É o ronco compassado de sua querida mamãezinha, é sua colega de quarto que perde a chave de casa às três da manhã e fica ligando para o seu celular até que você  abra a porta, é o seu avô que decide que sob a sua janela é o ponto acústico perfeito para martelar em algo por horas, ou para conversar com as pessoas que passam na rua. Muito, muito amor.

Mas um dos aspectos mais irritantes de viver sob o mesmo teto que alguém é, sem dúvida, o número de vezes que essa pessoa aperta a função “soneca” em seu despertador ou celular. Deveria haver um capítulo nos códigos de bom comportamento apenas sobre como esse hábito é insuportável, e como deixa quem não participa do processo num estado de absoluta tensão.

Para não parecer mais mal humorada do que realmente sou: não tenho absolutamente nada contra despertadores. Não é porque eu ando trabalhando e vivendo em horários alternativos que o resto do mundo precise fazer a mesma coisa. Se você tem que acordar seis e meia da manhã para bater cartão às nove, vou cobrir minha cabeça e te desejar em pensamentos um bom dia de trabalho, virar para o outro lado e tentar reencontrar o sono interrompido. Quando eu tenho que acordar num determinado horário, o tempo que vou passar a mais na cama não é nunca pontuado pela ditadura da soneca; do contrário, não consigo relaxar.

No entanto, normalmente as coisas não funcionam assim. Digamos que a pessoa precisa acordar às seis e meia: ela então coloca o relógio para despertar às seis e fica, de cinco em cinco minutos utilizando o recurso soneca. Considerando que a pessoa (que-ri-da) em questão está querendo dormir mais um pouco, é improvável que vá abrir os olhos só para deter um aparelho fora de controle. A ação de tatear a mesa de cabeceira até achar o despertador – e o botão correto que acionará o dispositivo – leva, portanto, o dobro ou o triplo de tempo necessário. Resultado: uns bons 15 segundos de alarme em sua cabeça, a cada cinco minutos, num intervalo de meia hora. Um pesadelo. E, juro, não estou exagerando.

Nesses cinco minutos (e em todos os outros que seguirão) seu parente/roomate/parceiro terá sonhos intricados e complexos, vai roncar e babar no travesseiro… enquanto você – no caso, e – vai estar imerso em angústia, perguntando-se se é dessa vez que o desalmado vai finalmente levantar, ou se você terá que ficar esperando por uma possível redenção pelos cinco minutos seguintes.

Considerando que, duas ou três repetições depois, quem perdeu o sono totalmente foi você –  no caso… –  é hora de levantar, ir ao banheiro, checar as olheiras, tomar uma água, abrir o  notebook, quem sabe até fazer um post meio ranzinza no blog, só para conjurar um sono que não há de voltar tão cedo.

Eu sei que sou voto vencido, que a humanidade incorporou definitivamente a soneca ao descanso. Só me resta correr para as cavernas, ou talvez nem isso. Porque eu só me mudo de vez se conseguir encontrar alguma que não tenha cigarras – ou mesmo passarinhos bem intencionados – na vizinhança.

Saudosismo na ponta da língua

A primeira segunda-feira do ano e lá estava eu, na seção de hortifruti do supermercado, indecisa sobre levar uvas ou cerejas frescas para o lanche*. Ao meu lado, um casal de velhinhos examinava com cuidado a pilha de frutas-do-conde. “Estão muito feias – disse a senhora -, é por isso que estavam tão baratas no reclame.”

Acabei me decidindo pelas uvas (mas já estou arrependida, e amanhã vou resgatar minha cerejas!), dei um sorriso para o casal  e fui embora, me sentindo um tanto cúmplice daquela escolha vocabular. Por conta de certas contingências familiares, eu passei grande parte da minha infância sendo criada pelo avô materno, que hoje tem nada menos do que respeitáveis 87 anos. Façam as contas, crianças, o pequeno Moacyr nasceu em 1924 – o “ph” da Pharmacia só caiu em 1943. Imaginem o número de arcaísmos que há naquela cabecinha branca, e quantos eu assimilei por osmose no decorrer dos anos. De vez em quando eu preciso de um toque das pessoas ao meu redor para dizer que não, Gabriela, as pessoas normais não falam assim hoje em dia.

Reclame eu bem sei que não se usa, que o comercial e a propaganda são os equivalentes que não fazem as pessoas olharem para mim com aquela cara de interrogação sobre onde foi que eu andei durante as últimas sete ou oito décadas. Mas naquele dialeto sentimental que compartilho apenas com o Seu Machado, num desses dias de dezembro me peguei comentando sobre os reclames de fim de ano da Globo, enquanto tomávamos café.

Agora chapéu é um caso clássico na minha vida. Eu não sabia que chapéu (usado para designar um guarda-chuva) havia saído de moda. Ou talvez o termo jamais tenha entrado em moda alguma e meu avô só fala assim  porque  é hipster deu na telha dele. De todo jeito, lá em Petrópolis é um tal de chapéu pra lá e chapéu pra cá – até porque, convenhamos, aquela cidade só faz chover – que eu assimilei a palavra e não consigo usar qualquer tipo de substituta, se não estiver muito atenta. O que, invariavelmente, faz com que meu interlocutor olhe pra mim daquele jeito estranho como se olha para pequenos bichos que vivem embaixo de pedras úmidas.

A lista continua. Banzé, no lugar de “confusão”, decalque em vez de “adesivo”, Cricri substituindo “implicante”, pratinhas para não dizer “moedas”. Putz grila, borocoxô, supimpa, bacana (eu sei, agora o bacana está ficando bacana de novo), tudo isso é do tempo “que se amarrava cachorro com linguiça”, “em 1900 e guaraná com rolha” –  duas expressões idiomáticas muito caras ao meu sábio avô.

Essa sou eu: com o saudosismo de uma época que não vivi na ponta da língua. Mentira, é claro que vivi: aquelas tardes em Petrópolis nas quais meu melhor amigo me ensinava a andar de bicicleta, a soltar pipa (embora eu nunca tenha aprendido) e a comer caqui quente de sol no pé – tirando a cica da fruta com muito cuidado. Ainda se fala cica por aí, aliás?**

 

***

* Essa frase poderia ter saído de um início de episódio de Desperate Housewives. O que atesta que janeiro é um mês esquisito na minha vida, no qual tenho que:

1) ficar dentro de casa escrevendo monografias de doutorado como se não houvesse amanhã, porque se eu for pensar no prazo, não há;

2) perder desesperadamente as calorias a mais consumidas em dezembro. Aquele panetone da Havana, os drinks com vodka de baunilha, o tender ao molho de laranja… razão pela qual eu estava na seção de hortifruti, e não na padaria, como dita o costume.

**fui pesquisar para ver se o deus google ajudava, e vejam que coincidência – o Vinícius ainda usa o termo cica. Faz sentido que esteja ficando com os cabelos brancos, e que, justamente hoje, enquanto escrevo, esteja ficando um ano [ainda mais] velho. Parabéns! ;) )

Retrospectiva Literária 2011 – blogagem coletiva

Tentando fechar o ano com mais coerência e menos preguiça – o que daria uma promessa e tanto para o ano novo, aliás -, acordei pensando num post coletivo que ainda tinha para esrever antes que 2011 batesse definitivamente as botas. A retrospectiva literária foi proposta pela Angélica, do Pensamento Tangencial, e consiste numa espécie de caderno de perguntas sobre alguns livros que lemos. (Desencavei  a analogia com o caderno de perguntas da minha adolescência sabe-se lá de onde. Devo ter acordado nostálgica, por conta do fim de ano. Julguem-me)

Acabei de descobrir que o prazo máximo para a confecção do post se estendia até ontem, mas ei, estou pouco mais de onze horas atrasada e fazendo um esforço imenso para redigir essas poucas linhas, e talvez  eu possa usar esse dado como forma de expiação para os meus pecados. Há dois gatos na sala que possuem opiniões muito firmes sobre como escrever é uma  bobagem, porque é um tempo ocioso em que não estou coçando a barriga de ninguém. Enquanto tento salvar meu pobre notebook das investidas dos monstros domésticos, ao mesmo tempo em que insisto em manter um campo e visão livre de pelos & patas, vou tentar responder da melhor forma possível ao que me foi solicitado.

O livro infanto-juvenil que mais gostei:
Nesse ano: O livro do cemitério, Neil Gaiman. Enquanto lia, só conseguia pensar em como eu teria adorado ler algo do tipo aos 8 anos. As aventuras de um menino criado em um cemitério pelos mortos e por seres fantásticos, num mundo cuja maior ameaça são os vivos. O enredo, inspirado por O livro da Selva, do Kipling – não, eu não li, só vi o Mogli da Disney – era puro apelo aos meus temas favoritos de infância.
Em todos os tempos: O escaravelho do Diabo, de Lucia Machado de Almeida e Um cadáver ouve rádio, de Marcos Rey. Não lembro exatamente dos plots de ambos, mas eram os meus favoritos da Coleção Vagalume. Aceito empréstimos (ou doações) dessas relíquias dos anos 80, aliás.
Menção honrosa: Pedro Bandeira, de quem eu li praticamente tudo entre a quinta e a sétima série. Os Karas fizeram parte da infância de muitos, e certamente da minha.
A aventura que me tirou o fôlego:
Nesse ano: Matadouro 5, de Kurt Vonnegut. Tô forçando a barra para o gênero Aventura, tô ligada.
Em todos os Tempos: Moby Dick, de Herman Melville. Eu tive uma série de clássicos adaptados quando era criança. Foi assim que conheci Tom Saywer, A Ilha do Tesouro, A Volta ao Mundo em 80 dias, entre outros. Moby Dick, o primeiro volume da tal coleção que se perdeu há muito, foi um dos livros que me causou maior impressão. E, antes que eu chegasse definitivamente à adolescência, já havia conseguido uma edição com o texto integral. Em tempo: todo o Capitão Planeta que eu assisti na TV não fez de mim uma pequena com consciência ecológica – eu torcia pelo Ahab.
O terror que me deixou sem dormir:
Nesse ano: nenhum
Ano passado: Precisamos falar sobre o Kevin, Lionel Shriver. Que bebê de Rosemary o quê, minha gente. Esse foi um dos romances mais perturbadores que li na minha vida. E agora que o filme foi lançado, confesso que estou com medo de ir ver sozinha.
O suspense mais eletrizante:
Quem matou Odete Roitman? Quem mexeu no meu queijo? Estou sem uma resposta satisfatória para essa pergunta. Passo.
O romance que me fez suspirar:
Que tipo de pergunta é essa? Exerço meu direito constitucional de não dizer o que me deixa parvamente suspirando por aí.
A saga que me conquistou:
Nesse ano: nenhuma.
Quando eu tinha 15 anos: As Brumas de Avalon. HAHAHA. Vâmulá, gente. Cada geração tem o Crepúsculo que merece.
O clássico que me marcou:
Nesse ano: Notas do Subterrâneo, Dostoievski
Em todos os tempos: Dom Quixote – Miguel de Cervantes. Li aos 16, e mudou a minha vida.
O livro que me fez refletir:
Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro. Também se adequaria na categoria que acabei de inventar “O livro que te deixou de bode por duas semanas inteiras”.
O livro que me fez rir:
Kafka à beira mar, de Haruki Murakami. Me fez rir, mas não só, é claro.
O livro que me fez chorar:
O passado, de Alan Pauls. E mais não explico.
O melhor livro de fantasia:
Hard-boiled Wonderland and the End of the World, de Haruki Murakami. Até hoje o meu favorito do Murakami.(Sim, é releitura, mas não há nada nas regras dizendo que não posso citar releituras).
O livro que me decepcionou:
Nesse ano: Algo Sinistro vem por aí, de Ray Bradbury. Poderia ter passado sem com muita facilidade.
Em todos os tempos: O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger. Depois de tanto me indicarem, acabei lendo, mas acho que já havia passado da idade. A impressão que me deixou foi a de ser uma daquelas narrativas que tem prazo de validade. Dia desses li no twitter – e não lembro infelizmente quem foi o autor da pérola de sabedoria – que o Apanhador no Campo de Centeio é tipo um On the Road, só que para baixinhos. Eu não conseguiria pensar numa descrição mais adequada.
O livro que me surpreendeu:
Nesse ano: O Circo do Doutor Lao – Charles G. Finney. Li 3 vezes, propagandeei entre os amigos, fiz post e tudo. Leiam. Sério, conselho de amiga.
A frase que não saiu da minha cabeça:
Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de um destino falido para outro até desistir. (…) Eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser a minha própria confusão”. Kerouac falava sobre si, mas nos meus delírios de grandeza, é claro que eu acho que eu poderia ter sido  esse personagem.
O(a) personagem do ano:
Bartebly, o escrivão. (Duas vezes o Melville na lista? Que estranho.)
E Midori Kobayashi em Norwegian Wood, de Haruki Murakami. Por razões sentimentais.
O casal perfeito:
Nesse ano: O Homem e a Mulher da Limpeza de O conto da Ilha desconhecida, de José Saramago.

O(a) autor(a) revelação:
Rubens Figueiredo. Mas é uma revelação para mim, porque a carreira dele ia muito bem, obrigado, antes que eu descobrisse seus livros. Fiz uma matéria nesse semestre na qual a professora fez a leitura do primeiro capítulo de Barco a seco. Fiquei tão obcecada que fui direto à livraria e saí de lá com um livro de contos (As Palavras secretas) e outro romance (Passageiro do fim do dia), que depois descobri ter abocanhado alguns dos prêmio literários mais importantes do ano. O Barco a seco ainda não achei para vender. Se alguém quiser me emprestar ou me dar de presente de aniversário (9 de abril, só para constar, mas também aceito presentes no dia da árvore, do índio, na Páscoa ou praticamente em qualquer outro dia do ano), não sou eu que vou me opor.
O melhor livro nacional:
Pergunta difícil, não me ponha de juíza de sei lá quantos autores. Chuto por alto meus favoritos: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, Primeiras estórias, Guimarães Rosa e Estar sendo, ter sido, de Hilda Hilst.
O melhor livro que li em 2011:
Pergunta muito difícil. Li algumas coisas nada menos que fantásticas esse ano. Mas se uma só precisar se destacar, eu diria Museu do Romance da Eterna, de Macedônio Fernández.
Li em 2011 72 livros.
A minha meta literária para 2012 é:
ler: apesar (e não por causa) do doutorado.

Dos livros que li em 2011

E não é que estou criando uma tradição para a rotina do Quinas?  Alguma outra que não envolva fazer um post comemorativo a cada Dia da Toalha, parabéns pra mim. A lista de leituras do ano, que cresce silenciosamente ali no cantinho direito – e cresce bem mais rápido que o número de postagens do blog, eu sei – acabou de ser concluída. Hoje é dia 29, e não creio que eu vá ter tempo/cabeça/paciência/saco/dedicação/humor para ler mais nada até o day after do Dia Internacional da Ressaca, que já  se anuncia.  Um engov antes, outro depois, e um dois de janeiro que será o ponto de partida para as monografias de doutorado do semestre. Antes que o pânico se instaure, melhor terminar o parágrafo.

Ano passado fiz a lista dos livros que li em 2010, que entra aqui para fins comparativos. A grande mudança de um ano para outro é a simplificação das divisões. Às vezes é difícil decidir se o que texto que tenho em mãos é fantasia, ficção científica, se é infanto-juvenil ou sei lá mais o quê. Como nesse fim de ano estou me sentindo mais ogra que de costume, achei por bem me ater ao básico, e olhe lá. É um texto ficcional dividido em capítulos que apresenta um fio narrativo da primeira à última página? Romance. Está escrito “contos” na capa? Contos. Não está escrito, mas ainda assim o conteúdo se parece com a definição da Tia Teteca da escola para contos? Contos. É o livro das mil e uma noites, que por acaso possui um fio narrativo da primeira à última página, mas que só serve de costura para os contos? Contos. Tem figura e balãozinho? Quadrinhos. Não se parece com nada disso? Não ficção. Claro que essa classificação é tão refinada quanto a minha coleção de moletons da Disney para usar em casa, mas tenham paciência. Por mais que eu me esforçasse, eu teria que criar uma categoria só para o Museu do Romance da Eterna, por exemplo. E já tem gente chata demais criando categorias por aí para que eu invente mais uma, né não? A designação “farofa,” no entanto, continua. Uma pena que esse ano ela foi quase nada utilizada: como assim eu li apenas um livro potencialmente idiota e retardado? Ano que vem, mais literatura duvidosa e menos 9gag na minha vida, esse é meu lema. Se bem que, talvez seja melhor não. Prossigamos.

Em 2010 li 90 títulos. Em 2011, 72. Não que a quantidade importe para alguma coisa ou alguém, mas imagino que a diminuição da lista tenha acontecido pela combinação de dois fatores, que poderiam ser três, mas faço questão de desconsiderar  o canto da sereia Internet, porque me recuso a entrar na mea culpa da vagabundagem online.  Os fatores, a saber, são: 1) a quantidade de leituras do doutorado – algumas interessantes o suficiente para figurarem na contagem oficial, outras nem tanto e 2) a extensão de certos livros – esse ano parece ter sido especialmente prolífico em me deixar à mão calhamaços de (bem) mais de 500 páginas. Lembrando que abandonei 2666, romance que estava adorando, porque fiquei com tendinite no punho direito e ganhei 5 dias de anti-inflamatório. SÉRIO. LIVRO PESADO DO INFERNO. Aceito doação de e-readers ou tablets, aliás. Nem precisa ser Ipad, mas bem que poderia ser.

Reler o post do ano passado me deu uma sensação estranha de inocência perdida. Eu me disse constrangida por ter lido apenas 3 livros de poesia e 2 peças. Esse ano não li nada em ambas as categorias. Acabei lendo bastante poesia de forma esparsa, via internet ou livros de amigos (juro!), mas de teatro nem cheguei perto. E olha que havia uma afirmação do tipo “crime inafiançável que pretendo corrigir esse ano”. Ha ha. Acho que não dá mais tempo.  O que me leva a uma nova resolução: não fazer grandes planos de leitura para 2012. (E é nesse momento que você, leitor, me lembra de que meu último post foi justamente sobre o desafio literário 2012. La dona è mobile.)

O número de quadrinhos lidos, no entanto, aumentou sensivelmente. Certeza que por influência do namorado, que fala/escreve muito sobre o tema. Títulos como Do Inferno e o Bátima do Frank Miller foram sugestões dele. Asterios Polyp, Dead Boy Detectives e Criaturas da Noite foram presentes que JP me deu ao longo do ano. E Daytripper só consta na lista porque ele comprou para outra pessoa e eu, folgada como sou, dei um jeito de ler antes que o presente fosse entregue. Gostei tanto, aliás, que cogito comprar para mim.

Não tenho explicações para a recorrência dos nomes Neil Gaiman e Haruki Murakami na lista. O que tenho são  algumas suspeitas, mas nada muito sério, até porque só parei para pensar nisso enquanto arrumava a lista. O Neil Gaiman acabou sendo lido mais por coincidências do que por qualquer outra coisa. Ganhei Deuses Americanos de presente do JP, que também me emprestou Os filhos de Anansi. Por causa de uma promoção do Submarino (quem nunca?), a Beta me deu o Coisas Frágeis I e II de presente de aniversário. Coraline achei dando mole em um sebo, o Livro do Cemitério foi presente meu para o namorado , enfim, um livro acabou puxando outro. Já com o Murakami eu cismei e pronto. Gosto do desconcerto que ele  me provoca, até nas narrativas mais “quadradas” como Norwegian Wood: nada nunca está exatamente no lugar em que nós, leitores, achamos que deveria estar. Os fatos não se encaixam perfeitamente, apesar da narração seguir sempre sem tropeços. Há um ruído de fundo constante, uma sensação de ligeira falta de sincronia com o timing do mundo. Não estou conseguindo me explicar, acabo de perceber. Uma hora qualquer escreverei sobre isso. Ou não.

Por fim, descobri ao longo do ano que Garfunkel – sim, da dupla Simon & Garfunkel, ou você conhece outro com esse nome? – também possui o hábito de registrar todos os títulos que lê. Não que isso queira dizer alguma coisa em si, ou que eu queira dizer alguma coisa específica com isso. Mas como gosto de escarafunchar nas leituras alheias – em outras palavras, sou voyeur de bibliotecas – achei que alguém mais por aí poderia gostar de fazer o mesmo. Afinal, você chegou ao fim desse post, não chegou?

Sem mais enrolação, segue a lista.

A lista dos livros de 2011

Romances (34)

Amor – Toni Morrison
A Viagem do Elefante – José Saramago
A caixa preta – Amós Oz
Fazes-me falta – Inês Pedrosa
No colo do Pai – Hanif Kureishi
Tópicos especiais em física das calamidades – Marisha Pessl – Um livro que adoraria ter lido na adolescência, era só o que conseguia pensar enquanto me divertia numa tarde qualquer.
De profundis – Valsa Lenta – José Cardoso Pires (releitura – doutorado)
Harold & Maude – Colin Higgins Sim, o livro que originou o crássico da Sessão da Tarde. Achei num sebo, num desses acasos felizes. Água, açúcar e infância.
Natalia – Helder Macedo (releitura – doutorado)
Museu do Romance da Eterna – Macedônio Fernández – Deu trabalho, em todos os sentidos possíveis. E já está no topo da pilha das releituras.
Leve-me com você – Paul Desalmand A ideia é fofa, a execução, boba.
Cântico Final – Vergílio Ferreira
Notas do Subterrâneo – Dostoievski
Matadouro 5 – Kurt Vonnegut
Em nome da Terra – Vergílio Ferreira – Um dos melhores romances que li no ano. Mas com potencial para semanas de pensamentos destrutivos sobre vida, velhice, degradação e morte.
Deuses Americanos – Neil Gaiman
Meus dias de escritor – Tobias Wolff
Na tua Face – Vergílio Ferreira
O labirinto da morte- Philip K. Dick
Os filhos de Anansi – Neil Gaiman
O passado- Alan Pauls
Do Androids Dream of Electric Sheep? – Philip K Dick Sinto informar, mas Blade Runner é MUITO melhor. [/voz decepcionada]
A máquina de fazer espanhóis – valter hugo mãe – Não é mau, mas tenho a impressão de que  muito dali saiu diretamente das páginas de Em Nome da Terra. 
Não me abandone jamais – Kazuo Ishiguro - Triste. Triiiiiiste. Não é consenso, mas foi assim que me senti. 
Frankenstein – Mary Shelley
Kafka à beira mar – Haruki Murakami
Norwegian Wood – Haruki Murakami – Me fez ficar com Norwegian Wood na cabeça por mais de um mês, palhaço.
Os irmãos Karamázov – Fiódor Dostoiévski – Fazendo as pazes com Dostoievski.
O circo do doutor Lao – Charles G. Finney - Uma das melhores surpresas do ano. Um achado.
Algo Sinistro Vem Por aí – Ray Bradbury – Decepção. Li ainda sob os efeitos de O circo do doutor Lao e a construção toda ficou parecendo parquinho de quermesse.
Amor em segunda mão – Patrícia Reis – Tão esquecível que é quase como se não o tivesse lido.
Hard-boiled Wonderland and the End of the World – Haruki Murakami (releitura – doutorado)
O livro do cemitério – Neil Gaiman – O livro que gostaria de ter lido aos 8 anos.
Coraline – Neil Gaiman

Contos (12)

Coisas Frágeis I – Neil Gaiman Alguns contos prestam
Coisas Frágeis II – Neil Gaiman Uma antologia de contos medíocres
O conto da ilha desconhecida – José Saramago
O Livro das Mil e Uma Noites – Vol. 1 – Ramo Sírio Outro desafio. Dessa vez pela extensão, ritmo, narração.
Putas Assassinas – Roberto Bolaño
Stories – Neil Gaiman e Al Sarrantonio (eds.) Nhé, leitura de viagem.
O Chamado de Cthulhu – H.P. Lovecraft (seguido de There are more things, de Jorge Luis Borges)
Remédio para a Melancolia – Ray Bradbury
Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street – Herman Melville
After the Quake – Haruki Murakami
As palavras secretas – Rubens Figueiredo

Quadrinhos (14)

Dead boy Detectives – Jill THompson
The Walking Dead – Robert Kirkman/Tony Moore (30 edições) – E cansei.
Do Inferno – Alan Moore – Uma das melhores coisas que li em 2011. E que pretendo reler em 2012, preferencialmente em papel. No scan muita coisa é perdida. E numa obra como essa qualquer perda de qualidade não é menos do que uma tragédia para o leitor.
A small killing – Alan Moore
Black Hole – Charles Burns
Promethea – Alan Moore – Absolute Promethea, juntarei meus cobres por você, aguarde-me.
Batman, o Cavaleiro das Trevas – Frank Miller
Macanudo I – Liniers – Liniers na Comicon + desenho e dedicatória para mim = oooowwwn.
Macanudo 2 – Liniers
Daytripper – Fabio Moon e Gabriel Bá
Asterios Polyp – David Mazzucchelli
Valentina 65-66 – Guido Crepax
Valentina 66-68 – Guido Crepax
Criaturas da Noite – Neil Gaiman/Michael Zulli

Não ficção (13)

O livro da vida – Santa Teresa D’Ávila – Sim, eu sei. Parece um livro aleatório na lista, mas tenho um interesse por experiências de êxtase místico, e a figura de Teresa também me é muitíssimo interessante. 
Contra Vento e Maré – Mario Vargas Llosa
O que falo quando falo de corrida – Haruki Murakami
O existencialismo é um humanismo – Jean Paul Sartre
Cartas a um jovem poeta – Rilke
Screw Jack – Hunter S. THompson
Outliers – Malcolm Gladwell
The Cambridge Companion of Science Fiction – Vários
O prazer de ler – Heloísa Seixas
O Zen a a arte da escrita – Ray Bradbury
Um livro por dia – Jeremy Mercer
Os demônios de Henry – Patrick e Henry Cockburn
Conversas com Cortázar – Ernesto González Bermejo

Farofa (1)

O Guia de Sobrevivência a Zumbis – Max Brooks – Não, não me indiquem mais nada com zumbis. Já deu. 

Dentre as compras de fim de ano já estão prontos para serem lidos o 1Q84 do Murakami (sim, de novo, mas eu juro que posso parar na hora em que eu quiser) o meu Portable Dorothy Parker que eu sempre quis ter (repitam comigo, crianças, DOROTHY PARKER É  RAINHA ABSOLUTA) e Passageiro do Fim do Dia, de Rubens Figueiredo, outra grata surpresa que 2011 me trouxe. E lá vamos nós outra vez.